Pane seca
A encarregada do papel higiênico certamente havia se esquecido de deixar o rolo reserva, pois, no pior momento possível, a acompanhante ficou na mão.
Quando pôde solucionar o problema mais imediato, abriu rapidamente a porta do quarto na esperança de que a sargento do papel higiênico ainda estivesse no corredor. Viu, ali na frente, o moço do departamento de coleta de sangue e, ao longe, a moça do departamento dos espessantes de líquidos, ninguém mais.
A acompanhante se encaminhou à gestoria, onde foi informada de que a responsável pelo papel higiênico só retornaria na segunda-feira, por conta do feriado.
- E como eu me limpo até lá?
- Nós podemos recomendar as toalhas de papel ou o chuveirinho higiênico.
- Mas estou vendo os rolos de papel higiênico logo ali, ao alcance das suas mãos.
- Compreendo, senhora, mas é que não podemos tocá-los. Só a sargento do departamento de papel higiênico mesmo. Tenho entendido que ela deixou rolos reservas nos quartos hoje, por causa do feriado; pode ter havido algum erro.
- Tem alguém mais com quem eu possa falar?
- Tem a tenente do departamento de papel higiênico.
- Ah, ótimo! E onde eu a encontro?
- Na segunda-feira, senhora, por causa do feriado. Só se quiser protocolar a demanda de gestão centralizada do papel higiênico. Neste caso nós enviamos um pedido a Brasília para que autorizem a liberação de rolos antecipada e desvinculada do departamento de papel higiênico. O prazo de aprovação é de um dia; é possível que para amanhã já esteja liberado.
- E como eu faço isso?
- É só preencher as duas vias deste formulário e entregar no departamento das solicitações centralizadas, ao lado do departamento de crachás.
A acompanhante resolveu que esperar até sábado ou domingo era melhor do que esperar até a segunda-feira. Protocolou o pedido.
Na segunda-feira, a sargento do departamento de papel higiênico entrou no quarto cedo.
- Ai, graças a Deus, sargento! Eu tô sem papel desde sexta-feira. Tentei pedir o centralizado, mas teve uma pane em uma máquina de fax em Brasília e atrasou meu pedido.
A sargento do departamento de papel higiênico saiu do banheiro carregando o resto das toalhas de papel que a acompanhante economizou para o caso de pane da ducha higiênica.
- Senhora, a partir de hoje o seu controle de papéis higiênicos e toalhas de papel estão centralizados por Brasília, a autorização chegou pela manhã - disse, magoada, a sargento. - Eu já não estou autorizada a fazer esta manutenção diária, peço que se comunique com a gestoria para ver quais são os próximos passos. Bom dia.
A acompanhante não teve reação; ficou sentada na poltrona reclinável azul turquesa, observando a porta fechada com tanta veemência. Depois de receber o departamento de coleta de sangue, de medição da pressão, de dedetização do ralo, de aferição da temperatura e de troca de roupa de cama, resolveu ir à gestoria, duvidando que seria simples.
- Bom dia. Vim buscar meu papel higiênico, que agora é centralizado via Brasília.
- Bom dia, senhora. Centralizado? Só um minuto que vou ver com a tenente.
A acompanhante já pressentia.
- Senhora, a tenente me confirmou que ainda não tem a autorização de Brasília para centralizar...
- Mas a sargento do papel higiênico me disse que já chegou.
- Pode haver algum erro...
- Tem como cancelar isso então? Voltar o papel higiênico ao normal? Já passou o feriado.
- Acho que nunca fizeram isso, senhora. Deixa eu perguntar pra tenente.
A acompanhante sentia sua energia se esvaindo entre departamentos e hierarquia.
- A tenente disse que a senhora pode conversar no acolhimento ou na assistência social, ali perto do departamento de curativos, ao lado do departamento de café-com-leite.
A acompanhante seguiu os passos de um lugar a outro, impotente para fazer qualquer outra coisa. Horas mais tarde voltou ao quarto sem respostas, papel higiênico ou toalhas sanitárias.
O quarto estava imaculadamente limpo; a cama estava vazia.
A acompanhante se dirigiu ao Posto B para falar com a sargento responsável.
- Senhora, aqui no sistema consta a solicitação de troca de acompanhado. O seu já está em outra unidade, com outra família e outra acompanhante.
- Mas sargento - desesperada - eu não pedi nada disso, eu não assinei nada, eu só queria papel higiênico! Onde está meu acompanhado?
- Pode ser um erro. Deixa eu falar com a tenente.
Ela sentiu as últimas gotas de energia lubrificando de maneira rala o motor do raciocínio sobre papéis e procedimentos.
- Senhora, a tenente confirmou que foi isso mesmo, seu acompanhado foi transferido e seu paradeiro é informação confidencial. A senhora pode falar no acolhimento ou na assistência social ou no setor de guias de transferência de acompanhados para entender os motivos.
- …
- Mas o processo para ter o papel higiênico já está em andamento em Brasília e o major responsável pelo caso vai entrar em contato com a senhora em dois ou três dias úteis.
Arrebentação
O primeiro ponto de desistência é um blefe do organismo. Digo isso como alguém que sucumbe muitas vezes a ele e que, entre sacrifícios e rendições, vai aprendendo que ele não é do corpo, é da mente.
Enésimo abdominal, ácido lático lavando o ventre e causando uma dor quase insuportável. Porém, se insisto, pareço atravessar a arrebentação e acontece uma espécie de reset que me permite aguentar muitas repetições mais. É o famoso “vai que dá“, gargalhando na cara da capitulação. Este insípido papo de coach não tem intenção de ensinar nada a ninguém, é só um relato pessoal e intransferível: sinto que é quando supero a pedreira inicial que entro em estado de flow, onde o esforço é intenso na medida, onde a mente está folgadamente focada.
A curiosidade de ver até onde o corpo vai é apenas uma de três coisas que fazem superar um limite físico estabelecido. A segunda é ser desafiada com uma possibilidade que eu não tinha sequer considerado. Quando estou correndo sem um plano e chego próximo ao limite, minha tendência é parar. Quando a aplicação levanta a vara e diz que, apesar de exausta, meu objetivo é correr vinte minutos mais, há algo que me diz que, se está no plano, é porque consigo. E misteriosamente consigo.
A última das três coisas que me faz superar um limite do corpo, eu percebi lendo uma newsletter estes dias. Ela dizia que só mantemos a constância de coisas que amamos, e só amamos coisas quando lembramos continuamente o porquê de amá-las. Corro porque quero ter um dia melhor. Me exercito porque quero ser uma velhinha que aproveita a vida até o último minuto, com o máximo que meu corpo pode dar. Acordo cedo nesse frio e com este sono porque quero um dia cheio de energia, porque sou minha prioridade e dedico tempo para mim antes de pensar em tudo mais.
E, consciente de tudo isso, entro na água imaginária e, braçada a braçada, me dirijo à arrebentação.
Obrigada por ler Conto contínuo. Por aqui, seguimos ❤️.


